Geomorfologia do Itatiaia

Geomorfologia do Itatiaia


por Antônio Leão - Guia Nacional

 

O Maciço do Itatiaia e a Serra Fina são os trechos mais altos da Serra da Mantiqueira. Nesta região estão algumas das montanhas brasileiras mais visitadas. Entretanto, poucos excursionistas imaginam que estas rochas se formaram a centenas de metros de profundidade. São chamadas de rochas intrusivas, porque são originadas do magma que se consolidou no interior da crosta terrestre (1) (2). Observe os grãos que as constituem. Eles revelam os minerais que se cristalizaram lentamente enquanto o magma esfriava embaixo da superfície.

 
     Estas montanhas se originaram de um verdadeiro cataclismo ocorrido há cerca de 70 milhões de anos. Este fenômeno abalou uma vasta área, provocando imensas fraturas na crosta terrestre. Para contar esta história é necessário voltar muito atrás no tempo – digamos, uns 300 milhões de anos...
 

Acredita-se que há mais de 300 milhões de anos, pedaços dos continentes que conhecemos hoje estavam unidos formando um gigantesco bloco denominado Pangéia. Durante a Era Mesozóica, há uns 150 milhões de anos, esse supercontinente começou a se dividir formando um bloco ao norte, chamado Laurásia, onde estavam partes do que hoje é a América do Norte, Europa e Ásia. Ao sul, formou-se um outro bloco denominado Gondwana, que no decorrer de milhões de anos também se dividiu originando a América do Sul, África, Antártica, Austrália e Índia. Os blocos das Américas, tanto ao sul como ao norte, se moviam para oeste, e acabaram se separando dos blocos que mais tarde se tornariam a Europa e a África. Pegue um mapa-múndi e observe o encaixe da costa leste do Brasil com a costa oeste da África . Este quebra-cabeça deu origem à teoria chamada de DERIVA CONTINENTAL. Mais tarde, este conhecimento foi aprimorado e surgiu uma nova teoria denominada de TECTÔNICA DE PLACAS (3).    

 

Em decorrência desta movimentação das placas, há aproximadamente 72 milhões de anos, ocorreu uma intrusão magmática onde hoje é o Itatiaia e a Serra Fina (4). A intrusão ocorre quando o magma penetra e se aloja no interior da crosta terrestre. É uma erupção que não alcançou a superfície. Neste caso, o magma se alojou entre as rochas metamórficas, os gnaisses, que formam a Serra da Mantiqueira e que tem cerca de 600 milhões de anos de idade.

 

Mais tarde, os blocos de rocha intrusiva afloraram pela ação dos terremotos e também da erosão. Assim nascia o Maciço do Itatiaia que, com 1.450 km2 , é o segundo maior do mundo com sua composição geológica, perdendo apenas para o maciço de Kola, na Escandinávia (1). No vasto Planalto do Itatiaia, se destaca o pico das Agulhas Negras, ponto culminante do Estado do Rio de Janeiro, com 2.791,6 metros (IBGE/IME). A rocha do Itatiaia é chamada de alcalina, devido a sua constituição, rica em elementos químicos alcalinos como sódio e potássio. O tipo rochoso nefelina sienito é abundante no Itatiaia e incomum no território nacional.  O maciço alcalino do Itatiaia é também chamado de maciço foiaítico. Foiaíto é um tipo de sienito que contém nefelina. A nefelina, ou nefelita, é constituída por silicato de sódio e alumínio. Aliás, o planalto possui fartura de bauxita, minério usado para a produção de alumínio.

 

   Há cerca de 70 milhões de anos, os continentes adquiriram uma posição próxima à atual. As placas continuaram se deslocando, sofrendo grande atrito e instabilidade nas zonas a oeste, onde ocorriam muitas erupções vulcânicas e terremotos. Estes terrenos começaram a se dobrar e a se elevar formando as Montanhas Rochosas e a Cordilheira dos Andes. Enquanto isto os velhos planaltos do leste, compostos por rochas muito antigas, cristalinas e metamórficas, foram sendo rebaixados por processos erosivos, ao longo de milhões de anos. Na América do Sul, estes planaltos encontram-se no norte da Amazônia, onde está o pico da Neblina, ponto culminante do Brasil, com 2.993,8 metros (IBGE/IME), e na faixa que vai do Paraná até a Bahia, onde se destaca o Pico da Bandeira (divisa do Espírito Santo com Minas Gerais), com 2.890 metros. Durante a transição entre os períodos geológicos Cretáceo e Terciário (70 - 65 milhões de anos), enquanto se formavam os Andes, os implacáveis tremores provocaram rachaduras nos terrenos do leste. Uma delas provocou um rebaixamento que originou o Vale do Paraíba, situado entre a Serra do Mar e a Serra da Mantiqueira. Esta época foi marcada por acontecimentos dramáticos como a extinção dos dinossauros e de outras espécies (2).

 

Ao longo de milhões de anos, violentas torrentes removeram grande quantidade de rocha pura da Serra do Mar e da Serra da Mantiqueira. Os detritos preencheram o Vale do Paraíba e formaram a bacia sedimentar, onde hoje está Resende, Itatiaia e outras cidades. A erosão prossegue até hoje, suavizando os contornos da serra e arrastando os matacões (grandes blocos de rocha), areia e seixos (pedras roladas) (3)(4). Alguns estudiosos acreditam que as caneluras existentes nas Agulhas Negras, e em outras formações do planalto, são resultantes de erosão glacial. Poucos sabem disso, mas foram estas caneluras, paralelas e em grande número, que deram origem ao nome “Agulhas Negras”. Parece ter sido a notável resistência da rocha alcalina, que manteve a atual altitude do Itatiaia, enquanto outras ao redor foram rebaixadas pelas forças erosivas.

 

A Mata Atlântica e as Glaciações

Nas sucessivas glaciações que se seguiram, trechos como o do Itatiaia e da Serrinha, voltados para o sul, sudeste e leste - direção do Oceano Atlântico - barraram a umidade que vinha do mar. A semelhança do que aconteceu na Serra do Mar, estes locais serviram como importante refúgio para as florestas dependentes de maior umidade. Quando o clima voltava a esquentar, a exuberante floresta tropical voltava a dominar com força. É o caso da Mata Atlântica que, na época do descobrimento do Brasil, cobria o litoral do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte e esparramava-se também para o interior sobre montanhas e vales como os da Serra da Mantiqueira. A Mata Atlântica é uma das maiores prioridades para a conservação da biodiversidade. Após cinco séculos de devastação, restam apenas 7,6% de sua área original.

Acredita-se que nos últimos 2 milhões de anos tenham ocorrido 16 longos períodos de glaciação. Nesses tempos mais frios, as calotas polares se expandiam e baixava o nível dos oceanos - cerca de 100 metros abaixo do atual. Havia, portanto, menos umidade na atmosfera e nevascas aconteciam em baixas latitudes e altitudes. As florestas se retraíram e os campos de altitude se espalharam. O Planalto do Parque Nacional do Itatiaia guarda um verdadeiro tesouro, remanescente desta época: a rara vegetação encontrada sobre a rocha e que têm parentes na Cordilheira dos Andes e em outros planaltos, situados acima dos 2.000 metros. Acredita-se que a última glaciação tenha ocorrido há 18 mil anos atrás (5).


Planeta Terra - origem e constituição (6)
Fonte: SBG - Sociedade Brasileira de Geologia / Núcleo Rio de Janeiro
 
Segundo a teoria mais aceita, acredita-se que o Sistema Solar começou a se formar há seis bilhões de anos, quando uma enorme nuvem de gás que vagava pelo Universo começou a se contrair. A poeira e os gases dessa nuvem se aglutinaram pela força da gravidade e, há 4,5 bilhões de anos, formaram várias esferas de gás incandescente que giravam em torno de uma esfera maior, que deu origem ao Sol. As esferas menores formaram os planetas, entre eles a Terra.

Devido à força da gravidade, os elementos químicos mais pesados como o ferro e o níquel, concentraram-se no seu centro, enquanto os gases foram, em seguida, varridos da superfície do planeta por ventos solares.

Assim foram separando-se camadas com propriedades químicas e físicas distintas no interior do planeta Terra. 

 
NÚCLEO - Constituído por ferro e níquel no estado sólido, com um raio de 3.700 km. Formou-se há cerca de 4 bilhões de anos.
 
MANTO - Formou-se em torno do núcleo, com uma camada que possui 2.900 km de espessura, constituída de material em estado pastoso, com composição predominante de silício e magnésio.
 
 ATMOSFERA - Em torno de 4 bilhões de anos atrás, gases do manto se separaram formando uma camada de ar ao redor da Terra. Já naquela época muito semelhante à atual.
 
CROSTA TERRESTRE – Formada, por último, há aproximadamente 3,7 bilhões de anos. A crosta não é igual em todos os lugares. Debaixo dos oceanos, ela tem mais ou menos 7 km de espessura e é constituída por rochas de composição semelhante à do manto. Nos continentes, a espessura aumenta para 30, 35 km, sendo composta por rochas formadas principalmente por silício e alumínio, mais leves que as do fundo dos oceanos.
 

 

Glossário

Fonte: SBG - Sociedade Brasileira de Geologia / Núcleo Rio de Janeiro
 

Crosta terrestre - Comparada às outras camadas que constituem o Planeta Terra, a crosta terrestre é uma fina camada de rochas que recobre a superfície do planeta. Solidificada há aproximadamente 3,7 bilhões de anos, também é chamada de litosfera. 

Bacia - planície cortada por um rio e cercada de montanhas. / Bacia fluvial , conjunto de terras banhadas por um rio e seus afluentes. O mesmo que bacia hidrográfica.

Bacia sedimentar - Depressão preenchida por sedimentos. Ex.: Bacia sedimentar do Vale do Paraíba do Sul.

Erosão - Processo de degradação, das rochas, solos e do relevo em geral, realizado pelas ação da água (chuvas, enxurradas), ventos e também pela ação química dos minerais transportados pelas águas.

Eruptivo - Que se efetua por erupção. Erupção é a emissão violenta do magma através da crosta terrestre (pode acontecer de o magma se consolidar no interior da Terra - rochas intrusivas) . Erupção vulcânica é a emissão para fora do vulcão de gases, cascalhos, cinzas e lavas.

Magma - A fusão do material existente no manto e na crosta dá origem a um líquido denominado MAGMA.

Rocha intrusiva - O maciço do Itatiaia é formado por rochas intrusivas (originadas do magma que esfriou lentamente no interior da crosta terrestre). Caracteriza-se pela ocorrência de um tipo de rocha alcalina incomum no território nacional, denominada nefelina sienito.

Vulcânico - Relativo a vulcão. Vulcão é uma abertura na crosta terrestre através da qual saem eventualmente lava, gases, cinzas e cascalhos.

 
TIPOS DE ROCHAS
 
O ramo da Geologia que estuda as rochas chama-se PETROLOGIA. As rochas são de três tipos principais: ígneas , sedimentares e metamórficas

ROCHAS ÍGNEAS – O resfriamento e solidificação do magma formam as rochas ÍGNEAS. Estas rochas mantêm as marcas das condições em que se formaram

ROCHAS INTRUSIVAS - As rochas ígneas que se consolidam no interior da Terra  chamam-se INTRUSIVAS ou PLUTÔNICAS. Elas têm todos os minerais bem cristalizados, do mesmo tamanho, indicando que o magma esfriou lentamente no interior da Terra, dando tempo para os minerais crescerem de modo uniforme. Ex.: granito.

ROCHAS EXTRUSIVAS - As rochas ígneas que se formam na superfície da Terra são chamadas EXTRUSIVAS ou VULCÂNICAS. Os minerais encontrados na rocha são muito pequenos – nem chegam a formar cristais. Isto significa que o magma esfriou subitamente. Isso acontece, por exemplo, quando o magma extravasa no fundo do mar. Ele esfria tão rapidamente que os cristais não têm tempo de crescer. Ex.: basalto.

ROCHAS SEDIMENTARES – A medida que os sedimentos erodidos vão se acumulando nas depressões, chamadas de BACIAS SEDIMENTARES, elas vão se compactando, transformando-se em ROCHAS SEDIMENTARES. Elas se formam, geralmente na superfície, a temperaturas e pressões muito baixas. Estas rochas podem indicar os ambientes nos quais elas foram depositadas. Por exemplo: os arenitos podem ser indicativos de praias ou desertos; os folhetos – rochas argilosas folheadas – de pântanos ou mares calmos

ROCHAS METAMÓRFICAS – São formadas a partir de modificações de rochas ígneas, sedimentares ou de outra rochas metamórficas, pelo aumento da temperatura e da pressão, porém sem que haja fusão. Isso ocorre, por exemplo, em regiões de choque de placas, onde as rochas são comprimidas ou em regiões em que massas de magma entram em contato com outras rochas, transformando-se pelo aquecimento. As rochas metamórficas mais comuns são os gnaisses, os xistos e os quartzitos.

Fontes:

 

( 1) Alberto Ribeiro Lamego, “O Homem e a Serra”, IBGE, 1950.

(2) Cristiano M. Chiessi , “A evolução geológica da Serra Fina” -  www.serrafina.org

(3) Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo - www.igc.usp.br/geologia/

(4) José Marcelo Rafful Bueno, Geólogo pelo Instituto de Geociências e Ciências Exatas – UNESP

(5) Kátia Torres Ribeiro, “Estrutura, dinâmica e biogeografia das ilhas de vegetação rupícola do Planalto do Itatiaia”. Tese (doutorado em ecologia) Universidade Federal do Rio de Janeiro.

(6) SBG - Sociedade Brasileira de Geologia / Núcleo Rio de Janeiro - www.sbgeo.org.br/cartilha.htm