Projeto Monitor de Ecoturismo

Como surgiram as trilhas de Mauá

História de Visc. de Mauá

Geografia
Região de Mauá
Aspectos bióticos

Nessa região, como na maior parte da extensão da Serra da Mantiqueira, as trilhas hoje utilizadas para trekking têm um longo histórico de uso. Falaremos especificamente do histórico de uso das trilhas que ligam Mauá a Itamonte, em especial a trilha do Campo Redondo, Macieira e Dois Irmãos, que cruza o Morro do Paraíba (2.200m), e a trilha que leva a Serra Negra e a Fragária, cruzando o Imponente Morro Cavado, e passando por altitudes próximas aos 2.300m. Desta longa trajetória de gerações de pessoas e animais que cruzam os caminhos da Serra sabemos, com alguma precisão de detalhes, apenas os últimos passos. No entanto, sobre o passado mais remoto das trilhas da Mantiqueira, muitas histórias ouvimos contar.

Maria Lucia no topo da Pedra Selada
Maria Lucia Abaurre Gnerre, da EcoMauá, Historiadora e estuda os caminhos e roteiros coloniais.

Trilhas de Visconde de Mauá

A região de Visconde de Mauá, incluindo-se Mirantão e Santo Antônio do Rio Grande era habitada, até o séc. XIX, pelos índios Puris, uma tribo nômade. Provavelmente, com o avanço do café no vale do Paraíba, os Puris foram ficando cada vez mais isolados em áreas remotas da Mantiqueira. Porém, antes disso, desde o fim do séc. XVIII, estes índios já cruzavam em seus caminhos muitos aventureiros que subiam a Mantiqueira em busca de ouro, ou a caminho das Minas Gerais em trilhas paralelas do Ouro.As trilhas oficiais por onde “descia” o ouro, e também as trilhas paralelas, através das quais o ouro era desviado (ou melhor, roubado) eram justamente antigos caminhos utilizados como rota destes índios em suas andanças pela Mantiqueira. Afinal esta Serra sempre esteve entre Minas e o Mar. Auguste de Saint Hillaire, o conhecido naturalista francês que chega ao Brasil em 1816 junto com a corte, descreve os Puris em sua expedição às Minas Gerais. Cruza com eles na passagem da Guarda do Embaú uma garganta na serra, que hoje está na altura de Cachoeira Paulista. Assim, sabendo da maciça presença humana nos caminhos da Mantiqueira desde épocas remotas, é impossível datar com precisão a maioria das trilhas pelas quais pisamos. Gerações de índios, Bandeirantes, aventureiros, tropeiros, já pisaram por aqui.

Os sulcos acentuados das trilhas dos Brejos e principalmente das trilhas que vão em direção a Fragária/Serra Negra, sugerem um longo histórico de uso, ainda que certamente tenha sido o uso de animais de carga responsável por um considerável afundamento destas trilhas, já na época das fazendas de leite. No município de Alagoa, há registro de uma das etapas oficiais do trajeto do ouro rumo a Paraty, que depois de cortar a Mantiqueira era escoado pelo caminho de São José do Barreiro. Isso na segunda metade do séc. XVIII. Sabemos que para cada trilha oficial certamente havia trilhas paralelas, e a trilha que desce do alto dos Brejos ( uma região de cumes belíssimos hoje pertencente ao PARNA-Itatiaia) em direção ao vale do Paraíba, tem um percurso curiosamente paralelo ao caminho de Alagoa (que hoje é a estrada que vai do vale do Paiol em direção a este município). Ambos são caminhos que vêm do interior de Minas em direção ao vale do Paraíba, o que sugere a possibilidade da trilha dos brejos ter sido utilizada também como escoamento de Ouro. Ambos os caminhos apontam na direção do que é hoje o município de Resende, que por sua vez é próximo de São José do Barreiro, com sua famosa descida da Bocaina em direção ao Mar. Também a trilha que costeia o Morro Cavado, vinda da Serra Negra em direção a Mauá certamente teria sido uma rota do ouro, segundo muitos relatos orais.

Pisando agora num terreno mais certo, uma evidência do longo histórico de uso das trilhas de Mauá são os muros de pedra, construídos por escravos, hoje disfarçados na paisagem do alto do Morro do Paraíba. É impressionante ver longas muretas de pedra nas altitudes que chegam a 2.200m, que marcavam as divisas entre fazendas mineiras do séc. XIX. Desde este período, o sul de Minas, como sabemos através de muitos relatos de viajantes e historiadores, já era uma região de pecuária leiteira. E os altos da Mantiqueira são das poucas regiões no Sudeste em que encontramos campos de altitude nativos, que desde tempos remotos eram utilizados na pelas boiadas que subiam e desciam a serra conforme a estação do ano. Esta produção de leite era condensada em queijo, um queijo duro e curtido que hoje vem a ser chamado de Parmesão. Queijo que era, e ainda é escoado pelas trilhas dos Brejos, e pela monumental trilha que desce da Fragária e da Serra Negra. Freqüentemente, em nossas caminhadas encontramos tropas compostas de burros e cavalos carregados com cestas de Sapê cheias de Queijo.

No Vale do Rio Preto ( o rio que corta as vilas da Maromba, Maringá e Mauá), há todo um histórico diferenciado de ocupação, com colonos alemães e suíços que recebem lotes no que hoje são as vilas referidas acima. Estes colonos sobem pela serra vindos de Resende. Este caminho, no início do século XX, era um caminho ainda mais tortuoso do que os caminhos de Minas. Esta colonização de europeus mistura-se as famílias vindas de Minas Gerais pelo vale do Rio Grande em direção ao Vale das Flores, ligado ao Vale do Rio Preto. A ocupação do Vale do Rio Preto dá inicio à abertura de uma série de trilhas que ligam os vales dos afluentes do rio Preto, onde estabeleciam-se aos poucos famílias de fazendeiros. Assim, há hoje, além das duas grandes trilhas citadas acima, trilhas que ligam os vales entre si, como a trilha do Alcantilado, a Trilha do Vale das Cruzes, do Pavão, além de fragmentos das trilhas que iam desde Visconde de Mauá até a Maromba.